terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um filme angustiante


Imagine um filme que você assiste tendo a exata sensação de estar sendo enforcado. Foi isso que senti durante os 100 minutos de "Présumé Coupable" (nos Estados Unidos, "Guilty"), película francesa lançada no segundo semestre de 2011. A história, se fictícia, já seria desesperadora, mas por mostrar um período real da vida de Alain Marécaux a coisa se torna terrível sob todos os aspectos.

Alain é apresentado nos primeiros segundos de filme. Ele é um oficial de justiça que num dia comum de 2001 tem sua casa invadida por uma quantidade assustadora de policias e um juiz que lhe dá ordem de prisão. Sua esposa também é presa e seus filhos levados sob custódia. A acusação, sem provas concretas e baseada apenas em falsos testemunhos de uma mulher desequilibrada, é das mais graves: pedofilia, num processo que prendeu mais 16 pessoas, acusou cerca de 80 e ficou conhecido como Caso Outreau, cidade que fica no norte da França.

Vincent Garenq dirige o filme sem complicar, um mérito essencial neste caso, mas seu foco é exclusivo e limitado a Alain. As semelhanças com um documentário aparecem demais e em muitos momentos o diretor se mostra propositalmente disposto a isso porque tudo é baseado nos relatos publicados por Alain em sua autobiografia lançada em 2005, inclusive seus depoimentos ao jovem e arrogante juiz Fabrice Burgaud, desesperado para conseguir condenar o acusado.

O trabalho do ator Philippe Torreton (indicado ao prêmio César como melhor ator pela atuação) é monstruoso, soberbo. O fato dele ter perdido 27 quilos durante as filmagens (definhando assim como a mente de Alain) é o menor dos detalhes porque seu olhar, sua expressão corporal e sua voz são parte de uma construção sem trilha sonora que mostra perfeitamente o sofrimento de uma pessoa violentamente injustiçada, que tem sua liberdade roubada por anos e enxerga o desmoronar de sua família, do seu trabalho e de seu patrimônio, com consequências eternas.

Evidente que depois de conhecer a história não me restou outra alternativa a não ser pesquisar mais sobre o caso em sites de jornais e vídeos. A coisa é realmente indignante porque a justiça francesa cometeu erros grotescos e injustificáveis, chegando ao ponto de estando Alain sob condicional preferir que ele, o então "mais temido acusado de pedofilia do país" ficasse hospedado na casa da sobrinha que tinha três filhos pequenos do que sozinho com o pai enquanto aguardava julgamento.

Já Fabrice Burgaud, o juiz, passou meses pedindo desculpas, assim como a justiça francesa, que perdeu boa parte da credibilidade depois da vida de 13 inocentes (um deles se matou na cadeia) e dezenas de familiares ser destruída. Uma vergonha.

Em tempo: o filme foi lançado em DVD na França no mês passado e infelizmente não sei se está disponível no Brasil.

16 comentários:

  1. Graziani, e a mulher que o acusou e que desencadeou tudo isso? Também foi vitimada pelo erro da justiça ficando impuni ou não sendo submetida a tratamento?

    Só por esse relato já dá pra sentir o quanto devem ter sido desgastantes, não só a representação do ator, mas os dias de angústia que passou esse oficial de justiça.

    Fico pensando em quantas injustiças do mesmo porte foram cometidas, principalemtnes em países que adotaram a pena de morte.

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    1. É uma violência sem tamanho...o filme incomoda demais...terrível. Não respondo sobre a mulher porque estaria contando parte da história, espero que vc compreenda...rs. Abraço.

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  2. Roysson, meu Deus, nem fala nisso... Já dá um frio na espinha só de pensar. E ainda tem gente que ousa defender essa idéia ridícula e retrógrada de pena de morte. Só espero que o exemplo de Alain finalmente amadureça o debate.

    Acredito que todos terão essa atitude, Graza. De assistir ao filme e logo em seguida pesquisar a história. Filme já a caminho...

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    1. Beleza e depois que assistir ao filme retorne e comente, por favor. Quero ver o que vc achou. Abraço.

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    2. Cuidado ao prosseguir: este comentário pode conter spoilers!

      Confesso que não assisti ao filme com a sensação de estar sendo enforcado. Eu me senti pendurado mesmo pela corda, a balançar, observando tudo com a anuência irresoluta dos mortos. Quando tentava me revoltar, a tristeza de ver a vida se esvaindo era maior. Esse filme é um misto de sentimentos atordoantes. Você pode até não gostar, mas não há espaço algum para indiferença. Inclusive passa rápido. Você nem percebe e o filme termina. Com um silêncio póstumo.

      Senti falta da história de Edith. Ficaram vários porquês pelo caminho. De uma hora pra outra ela muda de postura em relação ao marido. O não-saber torna o filme ainda mais angustiante. Demérito nenhum do diretor. O foco é Alain, sem enveredar, como você bem disse. E a gente se sente o próprio desaventurado em sua cela.

      Triste constatação: talvez aconteça todo dia, não só na França, mas aqui. Pior: a nova visão de justiça social consubstanciada na figura do jovem juiz de instrução. É exatamente daquela forma que se educa e se forma na academia hodiernamente. Um instrumentalismo que despreza as dádivas da experiência. Eis a nossa sociedade contemporânea. E o que dizer dos métodos policiais? É ou não é exatamente como vemos na tv a condução dos inquéritos policiais?

      Se pararmos pra pensar, entramos em pânico. Bem difícil analisar um filme assim sob uma ótica puramente estética da película. Não só pelo caráter documental que ele assume, haja vista a história ser real, mas o tema em si é muito difícil. Só tenho a agradecer pela indicação. E reforço a recomendação para que assistam e reflitam, principalmente no tema pena de morte e na incapacidade dos Estados de aplicar a Justiça.

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    3. Exatamente Chico...fiquei com essa dúvida e até certa raiva da Edith...mas faltam elementos para entender mais...no mais, gostei demais da sua análise...abraço.

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    4. É verdade, perturba até. E a gente se sente mesmo como ele, alguém que perdeu parte da vida na prisão, sem entender uma parte das coisas. Fiquei a pensar que algo fez com que ela não acreditasse mais tanto nele, talvez pelo depoimento do Sébastien, e aquele encontro anterior foi o último suspiro do amor, como uma despedida de outro Alain que ela um dia conheceu. Foi difícil pra ela também e a capacidade de julgar fica prejudicada. Afinal, uma família foi destruída do nada. A situação é toda absurda.

      Valeu, Graza. Eu que agradeço o espaço. Será sempre um prazer e uma honra!

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  3. Bruno de Oliveira Cavalcante7 de fevereiro de 2012 às 18:43

    Também procurarei por ele aqui nas locadoras. Viu algum filme da lista do Oscar? Assisti Meia Noite em Paris e não achei essas coisas todas. O próxmo da lista é Missão Madrinha de Casamento. Tava sentindo falta dos comentários de filmes e outros assuntos. A propósito, a uns dez dias atrás finalmente fui ao passeio público para rever o estado em que se encontrava e o restaurante que você recomendou. Gostei, e pretendo repetí-lo num sábado, eis que fui num domingo.

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    1. Oi Bruno, não sei se nas locadoras vc vai encontrar, mas qualquer coisa vc tem a chance de baixar na internet, se for o caso. Abraço.

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  4. Bruno de Oliveira Cavalcante7 de fevereiro de 2012 às 22:58

    Tenho que confessar que baixar filmes na internet não é o meu forte. Vou tentar as locadoras.

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  5. Vou baixar. Para quem quiser assistir, uma simples busca de Présumé Coupable download te dá vários sites que oferecem o download, inclusive já legendado e em formatos avi e rmvb. Só escolher!

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  6. Vou baixar. Para quem quiser assistir, uma simples busca de Présumé Coupable download te dá vários sites que oferecem o download, inclusive já legendado e em formatos avi e rmvb. Só escolher!

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  7. Graziani, assisti o filme ontem. Realmente causa uma certa aflição e muito desse sentimento está sedimentado na representação do protagonista que é soberba. Impressionante é que não se resume apenas na representação desse ator que eu não conhecia, mas também o fato de ser impactante o seu definhamento com o desenrolar da história.

    Quanto ao caso, se não fosse um fato real, eu diria que seria um dos piores roteiros escritos por alguém que nem sequer buscou estudar sobre as leis do país em questão e muito menos o Direito Forense. Daí dá pra tirar o quão grotesco foi a condução desse caso pelo jovem juiz. Erros primários e omissões que uma acusação tão grave requer foram cometidos. Eu fico na dúvida se foi incompetência somente ou a necessidade de responder rapidamente ao desejo de justiça da sociedade e mídia. Como se isso não bastasse, ainda houve a conivência de outros membros do judiciário não só com os procedimentos ou a falta deles, mas apenas atribuindo uma simples advertência a um mau profissional do Direito. Em outras palavras: corporativismo. Um desastre total e a conclusão de que não importa a relevância de um pais no mundo, erros brutais como esse podem acontecer.

    Ano passado li a respeito de um americano negro que passou 30 anos preso injustamente. O verdadeiro culpado se apresentou à polícia. Assim como Alain, nenhuma retratação é capaz sequer remendar os cacos que ficaram do psicológico. O americano recebeu a quantia de um milhão de dólares do Estado. Toda uma vida entre grades injustamente não tem preço! No caso de Alain, os desdobramentos sobre a sua família são irreparáveis.

    No mais, agradeço pela indicação do filme. Manda mais, pois foi show de bola.

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    1. Roysson, esse corporativismo da sentença foi grotesco! A gente custa a acreditar no que está vendo...

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  8. Acabo de ver o filme, o cara realmente parou de comer pra conseguir fazer o que fez, só pode.

    O filme te envolve de uma maneira emocional que você sente vontade de bater até no ator que faz o juiz - parece coisa de fanático noveleiro.

    Bizarro, fez falta um CNJ agindo como deveria agir...

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