Em uma das minhas muitas caminhadas pelas calçadas limpas e sem buracos de Madrid (algo que me fez perder oito dos meus muitos quilos desde que cheguei) passei pelo Cine Verdi da Calle Bravo Murillo e o cartaz de um filme (aí do lado) que teria sua estreia em breve me chamou atenção.
Um senhor numa cadeira de rodas, sorrindo, empurrado por um rapaz, sorrindo ainda mais, gargalhando. No alto do pôster, o relato. "A comédia com mais de 18 milhões de espectadores na França e 10 semanas liderando as bilheterias do país". Abaixo, o título do filme em espanhol: "Intocable" (no original, em francês, "Intouchables"). Impossível ficar indiferente e mais um entre milhões tinha sido fisgado naquele momento.
Como faltavam alguns dias para o filme entrar em cartaz, fui tentar entender o motivo de tanto sucesso. A história é real, algo que sempre tem um apelo positivo, desde que o filme realmente seja bom. Os diretores e roteiristas Eric Toledano e Olivier Nakache viram um documentário que contava a vida do francês Philippe Pozzo di Borgo, o senhor na cadeira de rodas. Riquíssimo, ele ficou tetraplégico depois de um acidente de parapente em 1993. Em 2001, Philippe publicou um livro sobre sua história e a construção da amizade com seu cuidador, o argelino Abdel Sellou, morador da periferia de Paris. O livro foi justamente a base para o documentário e a partir de então Eric e Olivier não tiraram mais da cabeça a vontade de contar a história. E a ideia fixa de ambos deu certo porque o filme é absolutamente cativante, muito também pelo desempenho do elenco.
Omar Sy, que faz o papel do imigrante pobre e que, sem querer, consegue o emprego para cuidar de Philipe, é um conhecido comediante francês e não por acaso ganhou o prêmio César em 2012 por sua performance espetacular. Não há absolutamente nenhum defeito na sua atuação, assim como no trabalho do veterano François Cluzet (uma mistura de Dustin Hoffman com Éric Cantona), que interpreta o milionário Philipe.
Ainda assim, o maior mérito do filme (que também tem uma trilha sonora perfeitamente escolhida, que vai de Earth, Wind & Fire até a música clássica, além de um elenco de apoio talentoso) é contar uma história difícil e dramática de forma inteligente e respeitosa, sem nenhum tipo de apelação ou vontade de causar pena em quem assiste.
"Intouchables" é simples, sensível, tem momentos engraçadíssimos e até nisso se destaca porque seus clichês deixam a história da rara e corajosa amizade dos protagonistas ainda mais bonita. É, sem dúvida, um momento especial do cinema europeu, tanto que já é o filme francês mais visto de todos os tempos, agora com números impressionantes que passam dos 20 milhões de ingressos vendidos na França e mais 10 milhões no continente por causa do sucesso na Alemanha, Suiça, Aústria, Itália, Portugal e Espanha.
No Brasil, não há, pelo que pesquisei, data prevista para o lançamento e, na verdade, é possível achar muito pouco sobre o filme (só falta não entrar no circuito, algo absurdo). Já nos Estados Unidos, "Intouchables" foi exibido na primeira semana de março durante um festival de cinema francês em NY, mas entra em cartaz pra valer em maio, depois que o estúdio de cinema The Weinstein Company comprou seus direitos. Não dá pra saber qual será a repercussão por lá, mas já se fala, além da distribuição em um bom número de salas, da realização de uma versão norte-americana para a história de Philipe e Abdel, principalmente se o público do país também entender, como alguns críticos norte americanos já entenderam, que o personagem interpretado por Omar Sy é vítima de racismo pelo modo como é retratado, algo que considero uma grande bobagem.
Vale lembrar que na França, pelo tamanho do sucesso que alcançou, o filme tem também gerado discussões políticas e raciais, principalmente por mostrar, no começo da história, Abdel como um imigrante mulherengo, usuário de maconha e que não tem muita vontade de trabalhar.


